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Livro de neurocientista brasileiro defende o cérebro como criador de universos

Palestra virtual de Miguel Nicolelis sobre seu mais novo livro fez parte da programação especial de homenagem ao aniversário dos 30 anos da Fapeal

Deriky Pereira

Miguel Nicolelis (Reprodução: YouTube/FapealOficial)

O Verdadeiro Criador de Tudo: Como o Cérebro Humano Esculpiu o Universo Como Nós Conhecemos, pela Editora Planeta, é o novo livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que palestrou sobre a publicação como parte da programação especial em homenagem aos 30 anos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) na tarde da última terça-feira (29). Na ocasião, Miguel contou um pouco sobre a origem desta obra e o motivo de classificar o cérebro como criador de tudo.

Eu começo o livro dizendo que o cérebro é um criador de universos, um gerador infatigável de abstrações mentais que adquirem um valor tão gigantesco que cada uma delas se transformou num universo próprio mais relevante e adorado que a própria vida humana. O que eu quis fazer não foi escrever um livro para cientistas ou um livro de neurociência, mas colocar o cérebro na verdadeira posição correta na cosmologia da nossa espécie no universo humano”, comentou.

O neurocientista completou dizendo o que o faz classificar o sistema nervoso central como o verdadeiro criador de tudo ao dizer que ele tende a criar abstrações e levá-las ao limite. “A mente humana emerge de um sistema computacional orgânico que não é digital – se a gente for muito generoso pode chamar ele de analógico digital”, comentou Miguel explicando que a capacidade do cérebro de interpretar informações do universo se dá por suas propriedades neurobiológicas que lhe permitem criar uma visão própria.

Essas propriedades lhe permitem criar um enredo, uma história tanto do indivíduo quanto coletiva que gera neste embate dessa história que existe dentro do cérebro que é adaptada continuamente com cada encontro que temos com o universo aqui fora, essa visão é adaptada por um fenômeno chamado plasticidade cerebral, que permite nos desenvolver expectativas do que esperar do mundo exterior, relações causais. É essa capacidade de se autoadaptar continuamente que permite o cérebro humano gerar abstrações mentais conhecidas como espaço, tempo, causalidade, ciência, filosofia, matemática, que são codificados não na informação digital que conhecemos”, refletiu o neurocientista.

Ainda segundo ele, o cérebro humano produz, gera e estoca informações como memória, linguagem e confecção de ferramentas. “Proponho que a informação manipulada pela mente humana é de outra natureza e eu chamei isso de informação godeliana em homenagem ao matemático Kurt Gödel, que mostrou que todos os sistemas formais criados pela mente humana são incompletos”, apontou, complementando que informações manipuladas pela mente humana dão a capacidade de gerar alterações semânticas e não somente sintáticas principalmente daquilo que esteja estocado em nossas memórias.

Falo que muitos indivíduos que nunca entraram num laboratório de neurocientistas são melhores neurocientistas que muitos que existem por aí, porque conseguiram descobrir como se gera um vírus informacional capaz de, em poucos segundos, sincronizar bilhões de mentes ao redor do mundo. Não é a toa que o presidente dos Estados Unidos hoje não dá a menor bola para a imprensa americana porque ele tem mais seguidores no Twitter do que a soma de todos os veículos de grande mídia de lá. Quando ele solta um tweet ele cria um universo paralelo que a mídia americana conjuntamente não consegue desmontar porque ele tem mais seguidores dessa visão de mundo”, apontou Nicolelis.

Miguel refletiu ainda que o cérebro não está involuindo e que o negacionismo científico é uma bolha, um universo criado por BrainNets infectadas por um vírus informacional. “Isso nega que a terra é redonda, que os objetos caem quando a gente joga do 13º andar de um prédio. Tudo isso é negado essencialmente a nível cerebral quando este cérebro é invadido por um vírus de informação que se apropria da lógica de pensamento e gera interpretações que apelam para toda sorte de valores éticos e morais trazidos ao longo da história na tentativa de negar a igualdade dos seres humanos, dos sexos, a variedade das opções políticas. O grande vírus de extinção não é uma cápsula de proteína e gordura com um filete de RNA. É o vírus informacional, que é capaz de jogar todos nós no abismo, de mãos dadas, cantando uma oração a um Deus que habita nas profundezas dos sucos do córtex humano. Eu já viajei por todas essas nuvens que existem por aí e nunca me deparei com nada e nem ninguém lá em cima”, explicou.

Você pode conferir toda a palestra e os debates sobre o tema clicando aqui a partir de 2:12:55.

Homenagens aos 30 anos de Fapeal

O reitor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Josealdo Tonholo, revelou estar honrado em participar deste momento festivo em alusão ao aniversário da Fapeal e recordou que foi o primeiro doutorando a receber apoio da fundação no início dos anos 90. Tonholo ressaltou ainda que a Fapeal é um órgão que utiliza muito bem os recursos que têm e faz a diferença num estado que precisa muito aprender a fazer pesquisa e pós-graduação.

Livro de Miguel Nicolelis (Foto: Reprodução/Internet)

A gente olha pra trás e pode ver com muito orgulho a nossa Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas não deixa nada a dever pra nenhuma outra, pelo contrário, é uma fundação que tem um presidente que atingiu a liderança do conselho das FAPs. Hoje a gente tem um governo que entende a importância da fundação de amparo à pesquisa, da ciência, a ponto de, enquanto vários dirigentes bateram a cabeça com a Covid, Alagoas foi em busca do que há de melhor nesse país: de um conselho científico. O estado de Alagoas é um estado periférico, mas presta muita atenção e dá valor pra ciência e tecnologia”, apontou Tonholo.

O reitor disse ser muito grato à Fapeal e parabenizou a todos que fazem a fundação por essas três décadas de história. “Tenho que agradecer muito à Fapeal pela oportunidade que me deu há quase 30 anos, mas mais do que isso: hoje na condição de reitor da Ufal e digo isso por quem já passou por vários governos neste país enquanto dirigente e pesquisador e eu sei a diferença que faz uma FAP que trabalha em favor da nossa causa. Queria parabenizar a todo o time da Fapeal e ao nosso governador Renan Filho por esses 30 anos da Fapeal”, comemorou Josealdo Tonholo.

Já o neurocientista Miguel Nicolelis destacou que a data festiva deve ser comemorada como um marco no país. “Queria dar os parabéns pelos 30 anos da Fapeal. Ser cientista no Brasil é um marco épico de sobrevivência e de teimosia, [assim] como ser nordestino é ser forte, mas acima de tudo, eu digo aos meus alunos brasileiros, que é ser teimoso. A teimosia é um dos pré-requisitos da ciência, para sobreviver as dificuldades de buscar o desconhecido e prevalecer do ponto de vista intelectual sobre aquilo que você dedica a vida inteira a tentar entender”, refletiu.

Em seu último ato oficial como diretor-presidente da Fapeal, o professor Fábio Guedes – agora Secretário de Estado da Educação – revelou sua gratidão em ter a palestra do neurocientista como parte da programação de aniversário da entidade e classificou o evento como uma Conferência Magna para o estado de Alagoas. Ele elogiou o livro de Nicolelis e, em seguida, recomendou: “O livro vale a pena ler, vale a pena ser explorado. Os primeiros momentos são difíceis, mas você vai rompendo as dificuldades, seu cérebro vai funcionando melhor”, disse o professor.

O mediador da palestra, professor Elder Maia, também prestou sua homenagem à aniversariante da semana. “Esta fundação de amparo tem sido absolutamente decisiva pra nossa atuação na condição de pesquisador e produtor de conhecimento. Não me canso de parabenizar, acompanho o trabalho de Fábio [Guedes] há 5 anos, assim como nosso colega João Vicente, a quem eu rendo os mais honestos e vigorosos elogios em nome de toda a comunidade científica”, disse ele, que também é diretor da Editora da Ufal (Edufal).

Percepção do público durante o evento

Por conta da pandemia do novo coronavírus, os eventos da Fapeal estão sendo transmitidos ao vivo em seu canal no YouTube. Enquanto a palestra de Miguel Nicolelis rolava, ao lado, na janela do bate-papo, diversos telespectadores enviaram mensagens – dentre perguntas a elogios – durante toda a transmissão. O perfil do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa destacou: “O Confap, e o conjunto de suas Fundações, parabenizam a Fapeal pelos 30 anos de história.”

Outros elogios como ‘fantástico’, ‘sensacional’ e ‘muito bom mesmo’ também foram ditos no decorrer da conversa. A Nadja Peixoto se disse encantada: “O desenvolvimento da ciência é fantástico. Mesmo sendo uma área de alto conhecimento neurocientífico, nós só temos que aplaudir tamanha evidência comprovada”, declarou. Já a Sandra Vasconcellos exaltou a palestra: “Sensacional! à altura da grande Fapeal! Parabéns!!!!!”, vibrou, enquanto Juliana Khalili, assessora científica de projetos especiais e inovação da Fundação, comentou: “Parabéns a todos por esse momento brilhante! Um presente para a sociedade!”

E antes de encerrar, Nicolelis agradeceu: “Obrigado a vocês pelo convite. Foi muito emocionante, prazeroso. Parabéns por tudo que vocês construirão em Alagoas. Parabéns professor Fábio [Guedes], professor Josealdo [Tonholo] pela tenacidade, por sobreviver a todas as dificuldades de manter um ensino público de altíssimo nível pros nossos jovens, obrigado professor Elder [Maia], Mateus [Alves] pelo apoio técnico, as perguntas de todo mundo. E um dia desse, quando tudo isso passar, vou cobrar meu peixe aí na Praia do Francês”, encerrou Miguel.